Créditos: Carlos Ramos

Já se tornou regular aqui no blogue as entrevistas a autores e confesso que é algo do qual eu gosto bastante, sobre o qual me divirto a fazer, porque é conhecer mais das pessoas que estão por detrás dos livros. E deste modo hoje trago uma autora, jornalista, que escreve romances e também é conhecida pelos seus livros juvenis, estou a falar de Patrícia Reis. 

Patrícia, muito obrigada por despender parte do seu tempo para me conceder esta entrevista. 

Como se descreveria enquanto escritora numa só palavra? 

Curiosa.

No ano passado editou As Crianças Invisíveis, um livro que aborda as questões do abandono, maus-tratos e adopção, e principalmente a interligação entre os três. Como surgiu a ideia para este livro?

Durante muito tempo, acalentei a ideia de adoptar uma criança, não aconteceu, tive dois filhos biológicos. Algumas pessoas próximas de mim adoptaram. Fui ouvindo as histórias e, a determinada altura, conheci um casal que tinha devolvido uma criança e pensei que era um tema demasiado invisível. 

A informação que temos é numérica,  x número de crianças foi retirada à família, y número de crianças está em processo de adopção, etc. Os números não nos dão a moldura emocional que permite uma narrativa. Assim, fiz pesquisa, por ser algo que sempre faço e que talvez se prenda com o facto de ter sido jornalista muitos anos a fio. No fim da pesquisa, transformei o que vi, o que ouvi e o que li numa ficção, porque importa sublinhar que As Crianças Invisíveis é um romance, não uma reportagem. Pode ter dentro muito de realidade, mas não é o decalque de nenhuma história real.

Não é um tema leviano e provoca diversas emoções nas pessoas. Como foi investigar para esta obra? Quais foram os maiores obstáculos?

O meu maior obstáculo é sempre o mesmo: excesso de emoção e capacidade de imaginação extrema, o que significa que me contaram histórias de crianças retiradas à família por abuso, por violência, e eu fui capaz de visualizar quase tudo. Ser escritora é isso: a capacidade de nos pormos na pele do outro. O território que me interessa, a dimensão ficcional, prende-se sempre com as emoções e com a construção de identidade. O conhecimento teórico – estão 60 mil crianças em instituições em Portugal, ou seja, o estádio do Benfica à pinha de gente – protege-nos de muita dor. A pesquisa é o contacto com o real e o meu maior obstáculo é a capacidade de me identificar. Chorei muito neste processo. Creio que qualquer pessoa choraria.

“Importa sublinhar que As Crianças Invisíveis é um romance, não uma reportagem. Pode ter dentro muito de realidade, mas não é o decalque de nenhuma história real.”

Contudo no seu romance anterior, também abordou o tema dos abusos, mas no seio da família. É um tema para o qual quer alertar os leitores?

A Literatura existe para incomodar, já o dizia Agustina Bessa-Luís. Se não nos perturbar, se não nos fizer pensar, não é Literatura. Eu escrevo sempre sobre pessoas, sobre as suas relações, sobre a maneira como crescem, como constroem a sua identidade. Existem temas que revelam quem somos e como somos. A violência é um deles e importa dizer que existe.

Quando se cria uma obra destas, com histórias tão fortes, o que é considera mais complicado?

Não sei se existe “algo mais complicado”. Existe um processo de escrita que é longo, muitas dúvidas e uma certa solidão, porque este é um trabalho solitário. O mais complicado talvez seja a logística, o ter tempo para escrever, porque, como se sabe, são muito raras as escritoras que vivem somente dos seus livros, logo existe uma outra profissão. O conciliar a escrita com o resto pode ser difícil de gerir e até gerador de alguma frustração.

Como se gere a revolta ao ter conhecimento de histórias como as que conta nos livros?

Chora-se. Aceito a emoção, a comoção, o sentimento de injustiça, a raiva que possamos sentir. Abraço tudo o que sinto e transporto tudo isso para a escrita. Não conheço outra forma de gerir. 

Créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

Tem, se generalizarmos, dois tipos de obras, romances maduros e que demonstram uma realidade, e por outro, livros juvenis. Há alguma razão para esta diversidade?

Sou uma grande adepta da diversidade porque é isso que nos confere humanidade. Não somos as mesmas pessoas às oito da manhã e às oito da noite. Gosto muito de ópera, mas adoro fado. Gosto muito de poesia, sou fã de banda desenhada. 

Escrever romances implica um determinado público, adulto, consciente, potencial leitor já formado por outras leituras. Escrever para os mais novos é uma responsabilidade muito maior, é um divertimento, é verdade, mas a responsabilidade duplica. O pequeno leitor pode não ter lido muitas coisas, pode não ter vocabulário, pode não saber tanto sobre um determinado assunto. Implica outra forma de escrita e uma atenção muito grande aos pormenores. 

O que mais a atrai na literatura juvenil?

O que mais me atrai é o estimular a imaginação dos mais pequenos, o criar curiosidades, o espicaçar das ideias. Na verdade, não é muito diferente do que pretendo do público mais crescido, mas há uma dimensão de alegria que me posso permitir na literatura infanto-juvenil e que porventura não me aparece nos romances.

Muito se tem falado sobre a literatura em Portugal, qual considera ser o seu papel, e o de todos os que escrevem para os mais novos, para fomentar leitores adultos?

O meu papel é o de todos os escritores: é escrever, é criar, é desenvolver narrativas que possam ser apelativas e que fomentem o interesse pela leitura. Diria que esse objectivo é transversal ao público jovem e ao adulto. Um país sem Literatura é um país sem voz. 

Créditos: Carlos Ramos

Qual considera ser o livro que sugeria a quem nunca leu nenhuma obra sua?

Depende da pessoa. Os livros não são encaixam todos em todas as pessoas. E também depende do tipo de leitor, se estivermos a falar de leitores com treino, com interesse, diria que As Crianças Invisíveis. 

Porquê?

Por ser o último livro que escrevi e por ser um tema importante.

Olhando para o panorama literário internacional qual é o/a autor/a que é para si uma referência?

É uma pergunta muito difícil. Diria que invejo, de maneira saudável, a J.K. Rollins por ter criado personagens que vão ficar no nosso imaginário e ter conseguido impor-se no mercado internacional. Tenho outro tipo de inveja com Siri Husvedt, é uma das minhas escritoras preferidas, sempre que a leio, fico a matutar no tanto que sabe e de como isso é bom. Existem outros autores, muitos autores, que sigo. Gosto de gostar dos livros dos outros, gosto de os ler e aprender alguma coisa, de perceber que mexem comigo e que me fazem pensar.  

E por fim, tem planos para novos projetos num futuro próximo?

Durante algum tempo, pensei que não voltaria a escrever. As Crianças Invisíveis sugaram-me a energia. Pensei que estava feito, que nada mais haveria para escrever. Enganei-me, talvez fosse evidente que me enganaria, já que escrevo desde que me lembro, há sempre mais uma história, há sempre mais uma pergunta para a qual procuro resposta na escrita. Por isso, posso dizer que estou embrulhada num romance novo cujo caminho desconheço, é um caminho que se faz caminhando. 

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