Hoje a conversa é com um autor muito querido do público português. Venceu em 2012 O Prémio Literário Note!, e hoje tem mais de 5 livros publicados, tendo A Morte do Papa chegado ao nº 1 do top nacional de vendas de livros. Hoje a minha conversa é com Nuno Nepomuceno.

Antes de mais, muito obrigada Nuno, por esta oportunidade.
Quando percebeu que queria ser escritor?

Por volta da adolescência, numa idade que não sei dizer com exatidão. Fui um leitor voraz durante essa fase do meu crescimento e houve um momento a partir do qual comecei a sentir curiosidade pelo processo de escrita. Já era conhecido na escola por escrever sempre muito nos meus testes, fosse nas composições de Língua Portuguesa, como num exercício de Matemática, e julgo que terá sido um desejo que se foi formando naturalmente.

Não considero que tenha um talento inato para a escrita; muito do que crio hoje em dia é o resultado do aperfeiçoamento da minha técnica e de muitas horas de trabalho, mas a verdade é que gosto imenso do «poder» que a narração de um livro pode trazer-nos. É possível emocionar alguém com as nossas palavras e hoje em dia são sentimentos aquilo que mais procuro transportar para a minha obra.

Nuno Nepomuceno

Ganhou O Prémio Literário Note! 2012, com o livro O Espião Português. De que modo esse episódio influenciou a sua vida?

Não considero que O Espião Português tenha lançado a minha carreira, apesar de ser uma referência pela qual muitos ainda me conhecem. O livro foi  bem-sucedido comercialmente, sobretudo tendo em conta que se tratava de uma primeira obra, mas senti imensas dificuldades em encontrar um editor para o volume da trilogia Freelancer que se seguiu, A Espia do Oriente. Contudo, no fim de ter toda a série publicada, aí, sim, comecei a perceber que as portas se começavam a abrir.

Considero que a maior importância do livro é o significado pessoal que encerra. O Espião Português começou a ser escrito em 2003, só foi editado em 2012, reeditado em 2015, e agora, em 2021, 18 anos depois, será novamente reeditado, desta feita pela Cultura Editora. Para um livro que foi recusado por todas as editoras nacionais, incluindo a que a originalmente acabou por publicá-lo, a sua longevidade é impressionante.

Nuno Nepomuceno

Nos seus thrillers, não só nos entretemos como também aprendemos muito, principalmente sobre religião. Quanto tempo dedica à investigação para as suas obras, para as tornar tão ricas neste aspeto?

É difícil de dizer, porque acaba por ser um processo dinâmico. Dou como exemplo o primeiro e o mais recente livros da série Afonso Catalão, A Célula Adormecida e O Cardeal, respetivamente.

Passei mais de seis meses a ler artigos de imprensa e a ir e vir à Mesquita Central de Lisboa para me preparar para escrever A Célula Adormecida. O terrorismo, a religião muçulmana e os movimentos migratórios eram temas sobre os quais sabia pouco, sentindo necessidade de os aprofundar.

Em O Cardeal, o processo foi mais rápido, embora não tão fluido, ou seja, a maior investigação que fiz foi sobre a cidade de Cambridge, que quis ficar a conhecer bem antes de começar a redigir o livro, o que acabou por ser fácil. Contudo, como o enredo é bastante complexo, acabei por ter de fazer paragens para aprofundar pormenores, como aconteceu com o arco narrativo que inclui a obra de arte de Rubens em exibição na capela gótica de King’s College, A Adoração dos Reis Magos. Foi uma inclusão não planeada inicialmente.

A Morte do Papa e O Cardeal, os seus últimos livros são uma continuação, em parte, um do outro. Foi algo que tinha planeado desde início, ou que acabou por surgir no decurso do processo de escrita?

A continuidade existente entre os dois livros foi imprevista, mas, mesmo assim, decidida enquanto escrevia A Morte do Papa. O escritor Adam Emanuel, que foi apresentado nesse livro como uma personagem relevante, no entanto secundária, deveria ter participado mais. Todavia, não lhe dei mais espaço, porque a história da sua família era demasiado complexa para ser incluída, tornando o livro muito longo. Daí que os segredos que o unem à irmã tenham sido reservados para O Cardeal, onde dividem o protagonismo com o professor Afonso Catalão.

Acha que hoje tem uma maior pressão para manter as expectativas que os leitores têm em si?

Sim, as pessoas não fazem por mal, mas acabam por involuntariamente exercer pressão quando me perguntam quando será publicado um próximo livro, ou fazem uma comparação entre diversos volumes da série, dizendo que um é melhor do que outro.

Tento sempre não pensar muito nisso e progredir ao meu ritmo, escrever as minhas histórias. Considero que neste momento a fasquia foi colocada numa altura muito elevada e haverá sempre alguém que irá sentir-se desiludido com o livro, ou desapontado comigo, mas a realidade é que depois de ter publicado vários livros de sucesso, a base de comparação será sempre injusta, porque irá sempre existir um título que não irá conseguir replicar a popularidade do anterior. Farei no próximo ano dez anos de carreira e isto é algo com o qual tenho aprendido a lidar.

Nuno Nepomuceno

Quão importante é a opinião do leitor para si?

É importante, mas não decisiva. Respeito o que as pessoas sentem e me fazem chegar acerca dos meus livros, mas tento não me guiar por essas opiniões, porque muitas vezes são contraditórias. Estamos a falar de gostos pessoais e aquilo que uns leitores apreciam, outros detestam.

É uma pergunta difícil, mas qual é a sua obra favorita e qual foi a mais excitante de escrever?

De todos os meus livros, A Última Ceia é o meu preferido. Adoro o Leonardo, o tigre da sibéria, e o papel que desempenha no enredo. O mais excitante de escrever foi Pecados Santos, pois tratou-se da primeira vez que me senti mais desinibido e com coragem para explorar uma narrativa mais negra.

Quais são os autores que admira e que são para si uma inspiração?

Considero Ken Follet um exemplo para qualquer escritor, não só pela qualidade narrativa das suas obras, como pela longevidade e versatilidade da carreira. Depois, há outros autores que marcaram a minha adolescência e início da idade adulta, que naturalmente hão de ter alguma influência no escritor que me tornei. São os casos de Nicci French e de Gillian Flynn.

Quais os conselhos que gostaria de ter ouvido quando estava a iniciar a sua carreira de escritor?

É difícil dizer a alguém o que fazer, ou como encarar uma determinada situação. Não sabemos tudo e por vezes, aquilo que funciona connosco, poderá não resultar com outrem. Julgo que aquilo do qual me arrependo mais for ter permitido que a primeira edição de O Espião Português ficasse totalmente nas mãos da editora que originalmente publicou o livro. Não intervim na capa, edição e revisão, havendo coisas nessa tiragem nas quais não me revejo. Portanto, julgo que o melhor conselho que me poderiam ter dado seria para me defender e àquilo no qual acredito. Mas isso será transversal a qualquer um de nós e não só aos escritores.

Nuno Nepomuceno

Por fim, o que nos pode contar sobre os seus projetos futuros?

Para já, ainda estou a acabar o meu trabalho na nova edição de O Espião Português, que será ainda este ano publicado pela Cultura Editora. Esta reedição apresentará diversos capítulos inéditos, personagens novas e um final diferente. O confinamento veio trazer alguma incerteza, não nos permitindo neste momento traçar um plano ou falar em datas, mas espero que o livro esteja disponível até ao verão.

Quando terminar, irei voltar a dedicar-me ao sucessor de O Cardeal, o sexto volume da série Afonso Catalão, cuja previsão se mantém para o início de 2022. Antes disso, no outono, espero apresentar a segunda temporada da série de ficção em formato podcast, O Assassino. Em 2022, planeio ainda publicar a reedição de A Espia do Oriente e A Hora Solene, respetivamente o segundo e terceiro tomos da trilogia Freelancer. Este ano será particularmente especial, uma vez que marcará o meu décimo aniversário de carreira, o qual gostaria de assinalar com algumas surpresas e comemorações especiais.

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A Minha Opinião dos Livros do Nuno
O Cardeal de Nuno Nepomuceno

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