O meu convidado desta semana já escreveu três livros, fundou três editoras e coordena vários projetos ligados à literatura. A nossa conversa é desde as suas obras, o seu processo de escrita, às várias formas de publicação, conselhos e muito mais. Convido-vos a lerem a conversa e a conhecerem melhor o Pedro Cipriano.

Desde já agradeço o tempo despendido pelo Pedro para conversar comigo.

Obrigado por esta oportunidade para participar no seu ciclo de entrevistas.

Ao nível profissional, é cientista, como apareceu a escrita na sua vida?

A escrita apareceu na minha vida aos 7 anos, pouco depois de aprender a ler. Devo confessar que aprender a ler foi difícil para mim, mas assim que aprendi tornou-se um vício. O primeiro texto que escrevi sem estar relacionado com a escola foi uma espécie de teatro com personagens como o sol, as nuvens, a chuva, etc…

Só no final do secundário, pelos meus 17 anos é que escolhi ser cientista, por ter uma grande paixão por descobrir como o universo funciona. Foi por volta da mesma altura que decidi também que queria ser escritor. Desde então tenho estado com um pé em cada um desses mundos.

Está ligado a projetos, ao nível profissional, de preservação das florestas. Acha que os ebooks são o futuro ou poderá ser possível fabricar livros físicos de forma consciente e amiga do ambiente?

Hoje em dia, quase todo o papel vem de “fontes sustentáveis”. Que fontes são essas? Bem, essas fontes são uma boa parte do problema: eucalipto. Extensões imensas são plantadas com essa espécie nativa da Austrália que é altamente inflamável e destrói os solos. É possível fazer papel com outras espécies sustentáveis que não sejam um problema para o ecossistema, mas creio que ainda teremos de esperar algum tempo para isso ser realidade. Em Portugal, o consumo de ebooks é ainda muito reduzido face ao peso do livro físico. Não acredito que o ebook substitua completamente o livro e os estudos de mercado provam que são vendidos a um segmento diferente dos livros físicos.

O Caderno Vermelho é o seu primeiro livro. Como foi ver o projeto a ganhar forma?

Foi uma aventura extraordinária! Foi uma auto-publicação feita de raiz por mim. Só pedi ajuda a uma amiga para me desenhar a capa. A inspiração veio-me quando estava num transporte público e comecei a escrevê-lo ai mesmo numa folha de rascunho. Acabei por escrever quase tudo nas longas viagens de autocarro e comboio de casa para o trabalho. Pedi a um amigo para ler e criticar, o que me ajudou a eliminar alguns erros de principiante. Também escolhi a gráfica e consegui que lançassem o livro durante as festas da freguesia. Esgotou quase de imediato! Apesar de ser do género poesia, era um livro bastante político e idealista. Como tal, hoje já não me revejo nele e portanto decidi não fazer mais nenhuma edição.

As Nuvens de Hamburgo, o seu segundo livro, foi vencedor do Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa 2018. Como foi para si ver o seu trabalho ser reconhecido com um prémio literário?

Foi uma euforia! Às vezes ainda olho para o troféu e não acredito que  ganhei 2 dos 4 prémios Adamastor em 2018! Quase que ia desmaiando quando anunciaram que tinha ganho o segundo. Foi uma tarde plena de emoções e o culminar do que considero ser o meu melhor ano a nível literário. Não só o Nuvens de Hamburgo ganhou o Grande Prémio de Literatura Fantástica Portuguesa como o meu conto A Aranha ganhou o Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em conto no mesmo ano. Esse conto está inserido na Antologia Steampunk Internacional, que foi lançada em Amiens, integrada na Eurocon 2018 e foi traduzido para inglês e finlandês. Incrivelmente, em finlandês vendeu muito mais que em inglês e ainda hoje não percebo porquê. A verdade é que isso me abriu muitas portas, por exemplo da minha editora atual e a nível profissional literário.

Muitos leitores conheceram-no através desta obra, sente pressão ao escrever novos livros, de modo a não dececionar os leitores?

Muita! Um livro é um contrato implícito com o leitor. Ele vem à procura de algo e investe o seu tempo na leitura com uma expectativa. O pior que pode acontecer é essa expectativa não ser atingida. Para além disso, sinto pressão para escrever algo melhor, mais complexo, com mais ação, etc. Sinto que apenas repetir a receita irá dececionar os leitores.

Entretanto, passaram 4 anos e ainda me pedem uma nova história da Marta. Para os que esperam: já está escrita e, assim que terminar a revisão, enviarei para a editora. O livro já tem título: As Lágrimas de Vukovar. Novidades em breve!

No final de 2020 lançou o seu mais recente livro, A Menina dos Doces. Como surgiu a ideia para esta história, e qual foi a sua inspiração?

A história inspira-se em eventos reais. Infelizmente, a maioria desses eventos e os motivos que me levaram a escrever a história não são os mais felizes. Obviamente cobertas com um certo grau de ficção, a maioria das situações relatadas no livro aconteceram na realidade, a mim ou a pessoas que me são próximas. Escrever o livro foi a maneira que encontrei para ficar em paz com tudo o que me aconteceu na infância e na juventude.

A história passa-se em Aveiro, algo pouco comum nos livros nacionais. Qual a maior vantagem de escrever sobre uma cidade que se conhece, sendo que é de Vagos?

Eu acho mais fácil escrever sobre aquilo que conheço. Mesmo o Nuvens de Hamburgo foi escrito à conta dos cinco anos que vivi nessa cidade. Nunca vivi realmente em Aveiro, mas tirei a licenciatura e o mestrado na Universidade, pelo que me sinto muito ligado à cidade. Por outro lado, é uma homenagem à cidade que foi, pois alguns dos locais mencionados no livro já não existem. Acho estranho quando um autor português escreve uma história passada no Reino Unido. Está no seu direito, é claro, mas não está a aproveitar uma característica que lhe é única. Posto isto, já tive oportunidade de publicar um conto de um autor estrangeiro que captou Portugal tão bem como qualquer escritor Português.

Até que ponto as personagens que cria para as suas histórias são inspiradas em pessoas reais?

As duas pessoas que me inspirei para criar a Liliana foram duas amigas. Aliás, quase todas as personagens da Menina dos Doces existem ou existiram na realidade, embora tenha ficcionado os nomes e caraterísticas pessoais. No caso das Nuvens de Hamburgo, uma boa parte das personagens foram baseadas nos meus colegas de Erasmus.

Há todo um processo de criação das personagens, ou vai criando-as à medida que escreve?

Quando são baseadas na realidade, basta perguntar-me: como é que X reagiria a isto? Quando não são, as coisas ficam mais complicadas. Para as personagens principais e relevantes, costumo ter uma ficha de personagem, quase como se fosse uma pasta da polícia. Tem todos os segredos negros, dados pessoais, gostos, memórias e tudo mais que me lembre. Costumo basear-me em pessoas reais ou fictícias e misturar várias características até chegar à personagem que quero. Para as personagens secundárias, não costumo planear nada, elas aparecem e desaparecem rapidamente e não vejo necessidade de ter tanto trabalho.

Não se consegue agradar a todos, e o seu mais recente livro tem sido alvo de algumas críticas. Como se lida com opiniões menos positivas sobre o nosso trabalho?

Não há uma maneira fácil de lidar com as críticas. O escritor investe imenso num livro, e não estou a falar apenas de tempo, mas também a nível emocional e pessoal. Por esse motivo, todas as críticas são complicadas de encaixar. Tento sempre ver o outro lado da pessoa. Como referi acima, uma má crítica deve-se a expectativas que não foram cumpridas. No meu caso, creio que a maioria das críticas se deveu a isso. As outras foram a más interpretações e conclusões precipitadas: não é por uma personagem agir de uma dada maneira que isso reflete a maneira de pensar do autor. O livro tem algumas situações cuja intenção é levarem à reflexão e nenhuma das personagens está sempre certa: como todos nós, temos momentos em que fazemos a coisa certa e outras em que não.

Fundou três editoras e tem diversos projetos ligados à literatura. O mais conhecido a editora Divergência, ligada à literatura fantástica e especulativa. O que acha que falta ainda em Portugal para se dar valor a estes géneros literários?

É uma aventura que já dura há algum tempo! Em primeiro lugar, a literatura fantástica está incluída dentro da ficção especulativa, que incluí também a ficção científica e o terror. Quando comecei, e mesmo hoje em dia, parece-me que não há muitos livros de autores portugueses nesses géneros. Quase todos são traduções de autores estrangeiros, quase passando a ideia que não há bons autores em Portugal, o que é mentira. Acho que deveríamos valorizar os nossos autores e comprar mais das editoras que apostam neles. Há uns anos havia a desculpa que os livros dessas editoras eram difíceis de encontrar, mas hoje em dia todas as livrarias mais conhecidas os têm. Deixo aqui algumas referências: António de Macedo, Pedro Lucas Martins, Bruno Martins Soares, João Barreiros, Luís Filipe Silva, Lívia Borges, Frederico Duarte, Nuno Ferreira, Rita Garcia Fernandes, Michel Alex, João Ventura, etc…

Qual o conselho que dá a um jovem autor que se queira aventurar num livro deste género?

Em primeiro lugar, ler muito. E quando falo em ler, não é só ficção especulativa, mas de tudo um pouco para terem boas referências. Depois, antes de apostarem numa trilogia com 500 páginas em cada volume, sugiro que participem em antologias. É uma excelente oportunidade de lidar com um editor e limarem alguns detalhes da vossa escrita. Por fim, estão prontos para escreverem o vosso livro: vai-vos demorar menos tempo e as chances de serem aceites para publicação são muito maiores.

Qual o maior desafio quando se pensa em fundar uma editora em Portugal?

Há dois grandes desafios que se mostram impossíveis de ultrapassar para a maior parte das pessoas: dinheiro e alcance. Em primeiro lugar é necessário bastante dinheiro para publicar um livro. A edição, a revisão, o design e a impressão tem de ser feitas com qualidade o que pode ficar caro em alguns casos. Sem essa qualidade, uma editora está condenada à partida. A segunda razão para a qual é preciso dinheiro é porque a maioria das distribuidoras e livrarias pagam entre 2 a 6 meses depois de terem vendido os livros. Um editor não pode simplesmente ficar à espera de vender o primeiro livro para lançar o seguinte, acabando por ter de investir às cegas, muitas vezes sem saber se o livro anterior vendeu ou não. O segundo problema é o alcance: vivemos num mundo atolado de informação, em que os livros são apenas mais uma forma de entretenimento. Para além disso, o mercado produz demasiados livros e a competição pelo espaço na prateleiras das livrarias é feroz.

Tem uma jornada de publicação dos seus livros que passam pela publicação independente, uma vanity e uma editora tradicional. Qual a lição que retira de toda a sua experiência?

Consigo ver os méritos das três. Pessoalmente, encorajo os autores para a auto-publicação ou a publicação numa editora tradicional. O meio termo da vanity acaba por não ser o ideal: pagam e não têm o controlo. Na auto-publicação, o autor controla todo o processo: escolhe a capa, o tipo de intervenção no texto, o preço e os locais de venda. Mas, como dizia o tio Ben: “com grande poder vem uma grande responsabilidade”. E isso implica que uma má decisão pode estragar tudo. Neste caso, o autor assume todos os custos e fica com todos os lucros, não tendo que os partilhar com ninguém. Por outro lado, na edição tradicional o autor não tem de pagar e apenas recebe uma percentagem por cada livro vendido. E claro, não decide todos os aspetos do livro, podendo mesmo ter que alterar, remover ou acrescentar ao manuscrito a pedido do editor. Geralmente, a editora tem melhores contactos com as livrarias, sendo mais fácil dar visibilidade ao livro.

Quanto tempo dedica à promoção dos seus livros? E qual considera ser a importância dos media para a promoção e difusão dos mesmos?

Muito menos do que deveria (riso). Vou colocando umas coisas no Instagram, fazendo umas entrevistas quando me convidam, ou me faço convidado (riso). Infelizmente, a gestão das editoras come todo o meu tempo e mesmo quando tenho tempo já não tenho cabeça para me promover. A importância da promoção dos livros é imensa, por causa da saturação do mercado. Hoje em dia há tantos livros para escolher que só quem consegue alcançar os seus leitores é que terá sucesso. Todos os autores devem tentar aprender o mínimo de auto-promoção e tentar estar presente nas redes sociais, mesmo que seja apenas com um perfil de autor e sem partilhar nada pessoal.

Que autores são para si uma referência, e porquê?

A minha maior referência é Ken Follet. Tenho os livros todos dele, alguns autografados, e até alguns que nunca saíram em Portugal. Tanto a vertente histórica como os thrillers funcionam bem para mim. Devoro tudo! Outro nome que é um cliché é Saramago, mas que eu adoro, não fosse ele um escritor de ficção especulativa! Cada livro é único, não consigo escolher um favorito. Por fim, Bruno Martins Soares, o nosso best seller de ficção científica militar da Amazon que infelizmente é pouco conhecido em Portugal. Em Português, só dá para comprar a Batalha da Escuridão, mas estou com esperança que lá para o final do ano já dê para comprar o Laura and the Shadow King na versão portuguesa. As personagens tem uma profundidade incrível e o ritmo faz-nos querer sempre virar mais uma página.

Se pudesse viver um dia na pele de uma das suas personagens, qual escolheria e porquê?

Eu gostava de ter os poderes da Marta (As Nuvens de Hamburgo). Era muito bom poder viajar no tempo e presenciar momentos históricos, pois sou um apaixonado por história. Sem querer dar nenhum spoiler, há certos aspetos sobre o poder dela que faz com que nem sempre seja muito agradável viajar no tempo. Não tenho bem a certeza se me arriscava a ser ela por um dia.

Por fim, o que nos pode contar sobre os seus projetos futuros?

Estou a terminar os últimos detalhes das Lágrimas de Vukovar. Estou também a pensar passar as Nuvens de Hamburgo para uma editora tradicional numa edição melhorada e muito mais profissional. Depois disso, já tenho 2 livros completos na gaveta à espera de tempo para lhes pegar: um policial e uma distopia.

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