A nossa conversa de hoje é com o Norberto Ribeiro. Investigador na Universidade do Porto de profissão, verá o seu primeiro livro “Olhos que Comiam o Medo” a ser publicado no próximo dia 27 de agosto de 2022 na Feira do Livro no Porto pela editora Trebaruna. Antes disso, estive à conversa com ele, para vos dar a conhecer melhor o autor.

Olá Norberto, desde já muito obrigada por me conceder esta entrevista.
Qual é para si a palavra que melhor o define?

Tenho alguma dificuldade em identificar uma palavra que me defina.

Primeiro, porque sou pouco dado a auto-apreciações. Sinto que são sempre pouco honestas, na medida em que tendemos a mostrar somente aquilo que estamos dispostos a tornar público. Penso que existe sempre, nesse exercício, uma visão interessada em passar uma persona aos outros que muitas vezes não corresponde, intencionalmente, ao que nós achamos de nós mesmos. Prefiro que os outros façam essa análise. Não verdade, a nossa definição só é possível através da relação que estabelecemos com os que estão fora de nós. Sem essa relação, não existimos.

Segundo, porque o uso de uma só palavra para me definir tem um peso excessivamente vinculativo e definitivo, como se fôssemos objetos estáticos, não evolutivos. O que penso de mim e dos outros é, não raras vezes, diferente do que penso no dia seguinte. E ainda bem. Se assim não fosse, seríamos todos escravos de um destino irredutível, que não nos deixaria ser autores do nosso próprio caminho.

Quando é que se iniciou o teu gosto pela escrita?

O gosto pela escrita iniciou-se sobretudo na faculdade. Foi o período da minha vida em que comecei a contactar de forma mais consistente com o processo de escrita. Os trabalhos que tinha de fazer para as disciplinas, em paralelo com as muitas e diversas leituras que iam fazendo, tanto do mundo académico como literário, suscitaram-me um certo fascínio pelo modo como se construía, palavra atrás de palavra, uma frase.

Lembro-me bem de descobrir o sentimento de satisfação que podia ser o simples facto de encontrar a combinação perfeita (pelo menos na minha cabeça) entre duas ou três palavras; do trabalho minucioso de artesão de entrelaçar umas palavras nas outras à procura de uma certa estética. Assim como do prazer que sentia quando conhecia uma palavra nova, cuja estranheza inicial me aguçava a curiosidade em saber o que significava.

Fui descobrindo que somos um pouco menos cegos cada vez que conhecemos uma palavra nova. São elas que nos permitem ver e ler o mundo. O primeiro livro que comprei na faculdade foi um dicionário. Percebi que havia muitas palavras que desconhecia. Ainda hoje há.

Olhos que Comiam o Medo do Norberto Ribeiro

Olhos Que Comiam Medo é o seu primeiro romance, como surgiu a ideia para esta história?

A ideia de escrever este romance surgiu ainda antes da pandemia numa das viagens de camioneta que fazia todos os dias para o Porto, cidade onde trabalho. Foi no meio de uma leitura, não me lembro bem ao certo (talvez o Purity do Jonathan Franzen), que aproveitava sempre para fazer para ocupar o tempo morto da viagem. Bendito tempo morto! No momento, não liguei, até porque era uma ideia sem qualquer relação aparente com aquilo que estava a ler, mas ficou registada na minha memória.

Recuperei a ideia um tempo mais tarde, inesperadamente, quando os meus dois filhos mais velhos me pediram para contar uma história antes de adormecer. Parece uma coisa excessivamente redonda e fofinha, mas foi assim dessa forma tão prosaica que decidi escrever o meu primeiro romance. Além do mais, vivia um período em que precisava de libertar a minha mente e a escrita revelou-se verdadeiramente terapêutica.

Toda a história da Delfina é particular, mas este livro é feito de muito mais histórias, onde se inspirou para todas elas?

Decidi desde o início que não teria nada estruturado para escrever. Era o que fosse saindo. O objetivo inicial era que fosse um tempo de completa recreação desinteressada para que esta atividade pudesse ter o tal efeito terapêutico de libertar a mente das neuroses que nos assolam a todos com maior ou menor intensidade.

Nesse contexto de quase indefinição permanente do que iria suceder na página seguinte, a escrita foi-se alimentando de diversas fontes, como por exemplo estados de espírito, notícias e crónicas que lia em jornais noticiosos, e até mesmo artigos de natureza filosófica e epistemológica que lia em canais de divulgação científica. Tudo tinha potencial para me inspirar, não excluía nada à partida.

Desde início que tinha o final pensado, ou foi algo que surgiu no decorrer do processo de escrita?

Como já disse, nunca tive nada estruturado que pudesse condicionar previamente a direção da escrita. O final só ficou definido no fim do processo de escrita e de revisão do texto. Foi sempre a escrita que me conduziu pela trela, e não o contrário.

Para além da motivação pessoal já referida de libertar a mente, talvez me tenha agradado a ideia apresentada por Salman Rushdie numa entrevista de que o romancista é uma pessoa que não sabe o que está a fazer; bem como a ideia confessa de George Saunders de não tentar ter nenhuma noção sobre o tema porque a sua cabeça não seria suficientemente sofisticada para os abandonar se tivesse de ser. Portanto, só comecei a pensar no final muito perto do fim da escrita do romance.

Foi assim porque, num certo sentido, acreditei que não devia de haver uma ditadura da escrita, sem margem para a imprevisibilidade, improvisação, para a especulação. Penso que este lado de incerteza constante na direção da história que se está a contar é o combustível mais poderoso da criatividade.

Do género: Se gostou deste livro, irá gostar do meu, que livros encaixaria?

Acho que é um livro sombrio, bastante marcado por cenários distópicos, como por exemplo a ideia de uma sociedade obcecada pela sanitarização de memórias e emoções, cuja implicação mais óbvia seria a perda incontornável da nossa humanidade. Não tinha qualquer intenção de me embrenhar nesse género. O que é certo é que isso aconteceu e talvez tenha acontecido por ter uma certa predileção por romances distópicos.

Nesse sentido, assumindo por completo a veleidade da comparação, penso que existe uma forte possibilidade de as pessoas que leram o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago e 1984 de George Orwell, também gostarem de ler Olhos que Comiam Medo.

Publicou diversos artigos científicos, tanto a nível nacional com internacional. A forma de escrita é diferente. Em que acha que a sua experiência o ajudou na escrita de ficção?

A estética da escrita é diferente, mas a disciplina e a capacidade de trabalho são as mesmas. Não acredito na ideia romântica de que só se escreve quando estamos inspirados. Pelo contrário, a minha experiência diz-me que a inspiração só surge depois de muito trabalho.

Por exemplo, na escrita científica, nomeadamente na área das ciências sociais, também é necessário termos imaginação sociológica (expressão cunhada por C. Wright Mills) para analisarmos as problemáticas sociais, e ela não surge com um mero estalar de dedos. É preciso insistir, transpirar. Daí considerar fundamental haver disciplina no processo de escrita, como qualquer outro ofício em que é necessário cumprir com um determinado horário de trabalho.

Além disso, subscrevo por inteiro o pensamento de Sophia de Mello Breyner, referindo-se aos poetas, de que se escreve não para se dizer o que se sabe, mas para saber o que se sabe. Bem entendido, concordo completamente com a ideia de que só sabemos, de facto, o que queremos escrever no próprio processo de escrita. É precisamente por causa deste traço que se dá a magia de conhecermos pessoas, sítios e emoções que nunca nos tinham passado pela cabeça.

Penso que esse é o elemento mais atrativo, e diria mesmo aditivo, da escrita: a possibilidade de tudo poder acontecer.

Este foi o seu primeiro romance publicado, foi também a sua primeira tentativa de entrada no mercado literário em Portugal?

Sim, foi a minha primeira tentativa. Quando finalizei o manuscrito, comecei a fazer pesquisas sobre como seria a melhor forma de o publicar, sabendo de antemão que existia muita concorrência e de que poderia não ser fácil. Nesse processo, deparei-me com a Editorial Divergência (responsável pela criação da chancela Trebaruna) e identifiquei-me com a sua filosofia assente em três éticas: cuidar do planeta, cuidar dos autores e leitores, e a partilha dos lucros.

Esta visão humanista da atividade editorial agradou-me. Tirando a pandemia, que implicou reajustar os timings do processo de publicação do livro, o que se seguiu decorreu dentro da normalidade. A Editorial de Divergência gostou da minha proposta, direcionando-a de imediato para a Trebaruna (cujo perfil editorial se encaixava melhor no tipo de romance que tinha) que me contactou para dizer que estava interessada em publicar o meu manuscrito. Fiquei muito feliz e aceitei convite. Não há outra maneira de dizer a coisa.

Como correu o processo de publicação? Foi de encontro às suas espectativas?

Como disse, a pandemia fez atrasar um pouco o processo, o que foi perfeitamente compreensível, dada a natureza inesperada e incontrolável deste evento que ainda não nos abandonou por completo. Contudo, o trabalho de revisão e edição do texto foi sempre feito de uma forma muito competente e rigorosa, lembrando-me a revisão cega interpares que se faz na publicação de artigos científicos de modo a assegurar quer a imparcialidade na tomada de decisão de se aceitar ou não os artigos, quer a qualidade metodológica e argumentativa dos mesmos.

Se tivesse um poder sobrenatural, ao género da Delfina, qual gostaria que fosse?

Sinto sempre alguma relutância em pensar nesses termos. Não me agrada muito a ideia de possuir algo que não é acessível aos outros. Agrada-me mais a ideia de ser diferente a partir da vontade própria e do esforço individual num contexto de igualdade de condições para todos. Além do mais, não se pode colocar de fora a hipótese de os poderes sobrenaturais poderem constituir-se mais como uma maldição do que um dom, tal como penso acontecer com Delfina. Mas pode haver diferentes interpretações desses poderes, e ainda bem.

Não obstante, agora que fui instigado a pensar sobre isto, diria que talvez gostasse de ter o poder de voltar atrás no tempo, só para demorar-me a ver a cara e as mãos, mais pequenas, dos meus filhos. Se tudo correr bem, daqui a uns anos também irei desejar ver os meus filhos tal como estão neste momento que escrevo e assim sucessivamente. Enfim, esse poder servir-me-ia para não perder de vista todos esses filhos que temos e que vão sendo gradualmente substituídos por outros pela marcha imparável do tempo.

Se tivesse a oportunidade de jantar com um escritor, qual escolheria?

Admiro vários escritores. Não tenho definido na minha cabeça um escritor preferido, mas talvez gostasse de privar alguns momentos com o José Saramago, que foi o autor que mais li.

E que perguntas lhe faria?

Acho que não faria perguntas específicas. Se fosse possível, talvez gostasse mais de estar um par de dias com ele para observar metodicamente o seu processo de escrita. Gostava de saber o que fazia antes de escrever, que música ouvia, como se sentava, como resolvia a luta entre palavras para formar a frase definitiva, se escrevia tudo o que queria, se se censurava, e por aí adiante.

E por fim, tem planos para novos projetos num futuro próximo?

Vão-me surgindo muitas ideias, mas infelizmente não têm passado da cabeça para o papel. É exigente ter de gerir o tempo para a família, o trabalho e a escrita literária. Mas não perdi de maneira nenhuma do meu horizonte o regresso à escrita literária. Sei que quando o fizer, voltarei à disciplina de escrever todos os dias, sentindo novamente a ansiedade crescente de se escrever uma e mais uma página até se tornar num vício. Entretanto, vou-me ocupando com a escrita intermitente de um diário a que dei o título Da Pele dos Pensamentos.

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